Maria Nazareth Ferreira - "Naza"

Português, Brasil

 

No dia 11 de abril de 2015, a USP perdeu uma das suas mais ilustres integrantes, a professora doutora Maria Nazareth Ferreira. Graduada em Biblioteconomia e História, mestre e doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo foi professora titular da Escola de Comunicações e Artes.

Em sua carreira colaborou com diversas instituições: Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), Universitè Cheik Anta Diop (UCAD-Senegal), Escuela Internacional de Cine y TV (EICTV-Cuba), Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RIO), Universidad de Cuenca (UC-Equador), Universidade Estadual de Londrina (UEL), Serviço à Pastoral da Comunicação (SEPAC/Paulinas), Universidad Técnica de Ambato (UTA-Equador), Universidade Federal de Goiás (UFG), Universidad Iberoamericana (UI-México), Universidade Anhembi Morumbi, Pontifícia Universidad Católica del Ecuador (PUCE-Equador), Universidad Central Del Ecuador (UCE-Equador), Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e Fundação Getulio Vargas (FGV).

“Naza”, como era conhecida pelos seus amigos e colegas, foi uma das primeiras pesquisadoras a estudar o jornalismo sindical no Brasil, tema da sua tese de doutorado e de livre-docência. Com base nestas pesquisas, publicou o livroImprensa Operária no Brasil, pela Editora Ática, e organizou a coletânea O impasse da comunicação sindical: de processo interativo a transmissora de mensagens, com artigos seus e de orientandos que trabalhava com o tema.

Além dos estudos sobre imprensa sindical, Nazareth também foi uma das pioneiras nas pesquisas sobre cultura popular latino-americana. Integrou o CEBELA (Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos) sendo sua presidenta por duas vezes e em 1996 organizou o CELACC (Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação), um núcleo de apoio à pesquisa da Universidade de São Paulo.

Desde os anos 1990, a professora Nazareth criticava os projetos de integração continental baseados unicamente nos acordos comerciais e mercadológicos, afirmando que beneficiavam mais os capitais transnacionais instalados no continente que as suas populações. Inspirada nos escritos do pensador cubano José Marti, Nazareth defendia uma integração baseada nas similaridades culturais dos povos latino-americanos, em especial os povos originários (“indígenas”) e os afro-latino-americanos. Por isto, a cultura popular era para a professora o campo que deveria ser privilegiado nos estudos sobre a integração latino-americana.

Maria Nazareth Ferreira era daqueles poucos exemplos de intelectuais que acreditam que o conhecimento era ferramenta para a transformação da realidade. “Conhecer para transformar” era o lema que adotava no CELACC. Por isto, optava nas suas pesquisas pelo paradigma marxista, em especial o pensamento de Gramsci. Uma das suas últimas obras foi Alternativas para o conhecimento científico, em que faz uma defesa apaixonada do método dialético marxista para análise dos fenômenos sociais. A obra foi produzida com base nas suas aulas de metodologia ministradas no Programa de Pós Graduação em Ciências da Comunicação da ECA.

Depois que se aposentou, Nazareth se dedicou à pintura, sendo premiada em várias exposições. Mas nunca deixou de acreditar que um dia os povos latino-americanos construiriam uma única nação não para os outros, para eles mesmos.

Nazareth era uma mulher cuja mente pensava com o coração porque acreditava nos sonhos. A sua competência intelectual era combustível para sua indignação com a injustiça social. Em tempos atuais em que vivemos riscos reais de retrocessos políticos, com o crescimento de fundamentalismos que ameaçam o caráter laico do Estado; intolerâncias de todo o tipo que interditam o debate público e o aumento de comportamentos preconceituosos sexistas e racistas incompatíveis com a democracia, faz falta pensadores como a professora Maria Nazareth Ferreira. Por que se pode concordar ou discordar das suas posições, mas não há dúvida que ela exercia plenamente a sua humanidade, valor que sempre faz falta.

Fique em paz, grande mestra.

 

Dennis de Oliveira
Chefe do Departamento de Jornalismo e Editoração, coordenador do CELACC (Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação) e orientando de mestrado e doutorado da Profa. Dra. Maria Nazareth Ferreira.

Ilustração: Renata Wrobleski

Texto oriignalmente publicado em: http://www3.eca.usp.br/noticias/maria-nazareth-ferreira-naza